Lucifer (HQ), de Mike Carey ūüďĖ Leituras do Solari #125

Lucifer4Sempre me interessei pelo Diabo como personagem de fic√ß√£o. Ou os diabos, porque existem afinal infinitas formas de representar o mal. Das hist√≥rias tradicionais da ‚ÄúB√≠blia‚ÄĚ a um anti-her√≥i que simboliza a liberdade individual como em ‚ÄúPara√≠so Perdido‚ÄĚ, as hist√≥rias de compra da alma com contratos cheios de letras mi√ļdas e at√© o Diabo c√īmico que s√≥ se d√° mal nas do cordel nordestino.

E tem a vers√£o da DC Comics encontrada em ‚ÄúLucifer‚ÄĚ. A s√©rie √© na verdade um spinoff, com o Lucifer aparecendo antes como imaginado por Neil Gaiman na s√©rie ‚ÄúSandman‚ÄĚ, quando ele resolve deixar de ser o pr√≠ncipe do Inferno, entrega de bom grado as chaves de seus ex-dom√≠nios para o Sonho e vai curtir um per√≠odo sab√°tico.

Ent√£o a s√©rie acompanha um Lucifer nesse per√≠odo de f√©rias do Inferno, mais preocupado em manter um bar em Los Angeles, chamado ‚ÄúLux‚ÄĚ, do que em pecadores hordas infernais. O sossego n√£o dura muito, ao receber de Deus uma carta em branco que o permitiria ir a qualquer lugar da exist√™ncia. E se parece bom demais pra ser verdade, √© porque √©.

O pr√≥prio Lucifer fala que ‚ÄúEm qualquer assunto com o Para√≠so eu penso em dissecar o cavalo e analisar suas entranhas‚ÄĚ. Em busca de uma resposta para que tipo de armadilha essa seria, ele sai em busca de suas asas de volta – que ele aposentou ao deixar o inferno – assim como dos poderes premonit√≥rios de um baralho de cartas de tarot consciente chamado Balsanos.

Ao longo das 75 edi√ß√Ķes a hist√≥ria principal vai sendo acompanhada de outras menores, com diversas reviravoltas, levando a mitologias de outras culturas al√©m da abra√Ęmica, √† cria√ß√£o de um segunda Cria√ß√£o, Lucifer sem seus poderes tendo que enfrentar anjos e ser mais esperto que dem√īnios, viagens pelas bordas da morte e realidade culminando em um confronto final na Cidade de Prata e o assento de Deus.

Lucifer2

O que eu gosto dessa s√©rie √© que ela acaba sendo uma ‚Äúp√≥s-cosmogonia‚ÄĚ, uma continua√ß√£o pop da hist√≥ria b√≠blica. Algo muito interessante que √© levantado √© quais os pap√©is reais do Inferno e Para√≠so, o primeiro sendo mostrado como um lugar onde os penitentes sofrem por livre e espont√Ęnea vontade – talvez em um n√≠vel inconsciente – para tentar redimir seus pecados. O Inferno, mais do que a morada dos inimigos da cria√ß√£o, tem um papel positivo nela.

O mais interessante de Lucifer como personagem √© sua defesa ferrenha do livre arb√≠trio e √≥dio com a religiosidade organizada. Mas, como em uma trag√©dia grega, quanto mais tenta agir com seu pr√≥prio livre-arb√≠trio ele acaba fazendo o que estava predestinado. Alguns personagens secund√°rios s√£o incr√≠veis. Gostei em particular de Mazikeen, companheira de Lucifer e uma lilim, uma ra√ßa de criaturas que descenderam de Lilith. Tamb√©m fascinante √© a forma como a s√©rie imagina A Cria√ß√£o como algo c√≠clico, n√£o foi a primeira nem a √ļltima ‚Äútentativa‚ÄĚ.

Uma s√©rie incr√≠vel que me lembrou muito o sabor do selo Vertigo como em ‚ÄúSandman‚ÄĚ, mas que n√£o deixa de trilhar os seus pr√≥prios caminhos.

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