O Homem que Passeia, de Jiro Taniguchi ūüďĖ Leituras do Solari #124

Ano passado fui sozinho ao Japão por uma viagem de 21 dias e passei por lá alguns dos melhores momentos da minha vida. Fui aos pontos turísticos, fiz minhas compras, e isso foi bacana, mas 75% do tempo eu estava simplesmente andando pelas ruas de Tóquio ou Osaka sem destino e sem hora para voltar. Japão é um país que convida você a andar sem rumo, por ser muito seguro e, mesmo que Tóquio tenha suas avenidas de selva urbana, ela é também cheia de ruelas interessantes, parques belíssimos, bares em becos esquecidos. Poucas vezes me senti tão feliz. Simplesmente andando.

√Č esse tipo de prazer em simplesmente passear que √© mostrado o mang√° ‚ÄúO Homem que Passeia‚ÄĚ (Devir), de Jiro Taniguchi, que pode ser classificado como ‚Äúnouvelle manga‚ÄĚ: uma combina√ß√£o do estilo nip√īnico de HQ com uma sensibilidade que lembra o cinema franc√™s em sua capacidade de reconhecer a poesia que existe na banalidade do cotidiano.

Taniguchi √© um mestre em capturar essa simplicidade. Ele √© tamb√©m criador de ‚ÄúGourmet‚ÄĚ (Conrad), sobre as aventuras gastron√īmicas de um representante de vendas. Ambas as obras t√™m uma sensibilidade semelhante de contempla√ß√£o, mas enquanto ‚ÄúGourmet‚ÄĚ traz descri√ß√Ķes minuciosas e fascinantes sobre a comida e cultura japonesas, ‚ÄúO Homem que Passeia‚ÄĚ √© uma HQ sobre o sil√™ncio.

Muitas das hist√≥rias praticamente n√£o t√™m di√°logo e mais parecem trechos de vida observados pela metade. Por exemplo, uma ‚Äúhist√≥ria‚ÄĚ √© simplesmente o protagonista sair para passear com o cachorro, v√™ gar√ßas voando em um parque, come√ßa a nevar e ele volta para casa. Fim. Em uma entrevista inclu√≠da no livro, Taniguchi fala de sua informal ‚Äúfilosofia de passeio‚ÄĚ, de andar sem objetivo e limite de tempo, criando um ‚Äúestado de disponibilidade‚ÄĚ e descobertas por acaso.

OHomemQuePasseia2

Esse mang√° me parece mais pr√≥ximo da poesia do que da narrativa, no sentido de que necessita da sensibilidade do leitor para completar a ‚Äúhist√≥ria‚ÄĚ. Um gato que te encara no muro √© s√≥ um gato que te encara no muro se voc√™ estiver com pressa. Mas, caso esteja nesse estado de disponibilidade, voc√™ se pergunta como √© a vida daquele gato, da fam√≠lia daquela casa. Que chap√©u estranho naquele senhor, o que ser√° que ele faz? Por que esse restaurante tem um detalhe de uma ave pintada no teto. Do que ser√° que aquela mo√ßa sentada no banco est√° rindo sozinha? Uma frase solta que voc√™ escuta no metr√ī e imagina como √© a vida daquela pessoa. Andar nesse estado te faz se sentir dentro de uma sopa de hist√≥rias e possibilidades. D√° a sensa√ß√£o de que n√£o existe lugar chato ou mon√≥tono se a sua cabe√ßa estiver aberta.

O conto que mais gostei no livro, por exemplo, se chama ‚ÄúO Caminho Comprido‚ÄĚ. Traz apenas o protagonista andando com um senhor indo na mesma dire√ß√£o que ele. Primeiro ele vai na frente, depois o senhor anda mais r√°pido e se ultrapassam algumas vezes sem trocar uma √ļnica palavra. Ao final, andam juntos. Sem ningu√©m dizer nada.

‚ÄúO Homem que Passeia‚ÄĚ tamb√©m mostra como caminhadas sem rumo levam a descobertas por acaso. Por exemplo, em um conto o andante encontra garotos com um avi√£o de papel preso em uma √°rvore, ele sobe pra pegar e ajudar e s√≥ de l√° descobre uma vista linda, que n√£o teria encontrado se n√£o tivessem aqueles garotos ali.

OHomemQuePasseia3Eu passei por momentos assim no Jap√£o. Por exemplo, andando encontrei um bar que estava passando o amistoso de futebol Brasil/Jap√£o e entrei. Acabei conhecendo uns japoneses por l√° e acabamos em outro boteco depois mais tradicional que eu jamais teria conhecido como turista, mas fui levado ao acaso e se tornou um dos melhores momentos da viagem para mim.

Assim como ‚ÄúGourmet‚ÄĚ, ‚ÄúO Homem que Passeia‚ÄĚ tamb√©m √© uma homenagem √† arte de ficar sozinho, que muitas vezes √© confundido com ser solit√°rio. Ficar s√≥ voc√™ com os seus bot√Ķes em sil√™ncio √© importante para a criatividade, para o autoconhecimento e arrisco dizer que ficar sozinho de tempo em tempo √© o √ļnico jeito de voc√™ ser feliz com voc√™ mesmo. E ficar sozinho √© cada vez mais dif√≠cil na nossa √©poca em que basta sacar o celular para mergulhar nas timelines de rede social. Buscar ficar entediado hoje √© quase um ato de resist√™ncia.

Sempre tive dificuldade de entender essa filosofia completista de viagem, de gente que fala com orgulho ‚Äúfui pra Europa e ‚Äėfiz‚Äô cinco pa√≠ses em uma semana‚ÄĚ. Tudo o que essa pessoa ‚Äúfez‚ÄĚ foi ver hotel, aeroporto, esta√ß√£o de trem e meia d√ļzia dos pontos tur√≠sticos mais manjados. Vejo uma filosofia parecida na obsess√£o de ler 100 livros por ano, ou se orgulhar de leitura din√Ęmica. ‚ÄúO Homem que Passeia‚ÄĚ √© um manga que voc√™ pode ‚Äúler‚ÄĚ em 45 minutos, mas ler ele assim √© o equivalente a passear correndo sem admirar a paisagem.

Altamente recomendado. Agradeço ao comparsa Daniel Rodrigues por ter me indicado o livro.

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