Fragmentos do Horror (HQ), de Junji Ito đź“– Leituras do Solari #127

Junji Ito Ă© um autor de mangás de horror que, depois de um hiato de 8 anos “fazendo mangás sobre gatos” – como explica em um posfácio um tanto cĂ´mico e MUITO japonĂŞs – resolve voltar ao gĂŞnero. O resultado está em “Junji Ito: Fragmentos do Horror” (Darkside), que traz oito histĂłrias que misturam medo psicolĂłgico e fĂ­sico, e que vocĂŞ raramente consegue prever que rumos vĂŁo tomar.

Já conhecia o trabalho de Junji Ito por histórias que pesquei pela internet faz muitos anos, como “Thing That Drifted Ashore”, sobre uma criatura marinha gigante que aparece numa praia e revela ter algo muito assustador em seu estômago, e “The Enigma of Amigara Fault”, sobre uma montanha com estranhas rachaduras em formas humanoides que emanam uma terrível atração. São histórias que me deixaram realmente perturbado e convido os leitores a darem uma checada nos links. Ainda são minhas favoritas.

O que eu gosto do horror de Junji Ito é que me parece uma mistura dos horrores cósmicos lovecraftianos com horror de ameaça física, assim como o sabor exótico que o terror japonês acaba tendo para um leitor ocidental. Principalmente pela influência de histórias e criaturas do folclore japonês e da tradição budista e xintoísta. As histórias de Junji Ito podem trazer mulheres pássaros que viajam no tempo, outra mulher que sente tesão por uma casa de madeira ou uma família que coleciona reflexos de entes mortos.

Muitas das histórias são influenciadas pelo yurei (幽霊), a versão japonesa dos fantasmas. A impressão que tenho da diferença para os fantasmas imaginados pela tradição cristã é que os yurei parecem ainda mais, bem, fantasmagóricos e propensos à possessão, a rondar o mundo por culpa ou vingança. É uma diferença bem sensível, encontrada mais no tom etéreo das histórias do que nas características das entidades.

Outro tema recorrente que achei bem curioso em “Fragmentos do Horror” é a presença de personagens femininos que mostram prazer por coisas mórbidas, de dissecação a se esfregar pelada por uma casa. Não vou me arriscar muito na psicologia de boteco, mas me pareceu um medo e demonização do prazer feminino que acho que bate com a ideia de “pureza”, muito presente na cultura japonesa. Me lembrou os caçadores de vampiro de “Drácula”, que pareciam mais aterrorizados com a disposição sexual de Lucy depois que se tornou uma vampira do que com o próprio Drácula!

Como é tradicional para a editora Darkside, o livro físico em si é muito bonito e caprichado. Uma bela capa dura colorida com referências a diversas das histórias e um relevo que visto na contra-luz traz mais imagens. Se tivesse que dar alguma observação, gostaria que tivesse um pouco mais de informações sobre quem é Junji Ito, quem sabe um prefácio sobre o autor. Mas é um detalhe.

Altamente recomendado para os já possuídos pelo fantasma do horror japonês. E quem está se perguntando se vale a pena comprar, acho que vale dar uma chance, ou no mínimo uma olhada nas histórias acima e tentar não ficar perturbado depois.

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