O Coringa em 10 ideias soltas

Eu não costumo fazer muitas resenhas aqui no canal de lançamentos, eu prefiro ver as coisas com calma depois que elas passaram do seu “ciclo de divulgação”. E uma resenha costuma ter um objetivo prático de dizer a quem lê se ela deve gastar o dinheiro dela com aquela obra ou não. Então essa não é uma resenha, ou nem uma análise porque vou fugir dos spoilers.

Coringa foi um dos poucos filmes ultimamente que me deixou realmente curioso para assistir. Eu posso não concordar com ele inteiro, mas ele fez o que toda obra de arte deve fazer, que é botar para pensar. Ao invés de uma resenha convencional, seguem 10 ideias soltas com as quais o filme me deixou:

1. Atuação – A caracterização de Joaquin Phoenix está incrível. O corpo dele inteiro parece transformado. Arthur, o Coringa, ri de uma forma de dói. Nós breves momentos que ele parece feliz você fica melancólico, porque sabe que a queda só virá mais profunda ainda.

2. Tarô – O Coringa, ou o Tolo, é a primeira carta do tarô, aquela que faz a viagem, é o protagonista. E isso meio que coloriu a minha visão do filme, comecei a enxergar os outros personagens como cartas do Arcano maior. A Mãe como a sacerdotiza, Thomas Wayne como o Imperador, a vizinha como Os Enamorados, o apresentador de TV como o Ilusionista, etc.

3. A Tensão – Cada cena parece que está prestes a explodir, seja em violência, seja em humilhação, seja nas duas coisas. Acho muito raro encontrar esse nível de tensão constante no cinema, acho algo mais fácil de acontecer no teatro, com a presença física ao vivo do ator.

4. Até agora não tenho certeza o que é real – O filme até deixa claro que alguns trechos são uma ilusão de Arthur. Eu gostaria que isso tivesse acontecido ainda mais. Podiam condimentar mais que eu gosto dos meus filmes e livros com bastante questionamento da realidade.

5. As perguntas em aberto – Gostei que o filme deixa muitas coisas sem resposta. Como sobre a verdadeira identidade de Arthur, você pode acreditar em duas versões, mas nenhuma verdade é explícita. E para mim a cena mais tensa do filme é quando Arthur sai de um determinado apartamento e o filme não explica o que ele fez lá dentro.

6. Incel – É um termo que vamos discutir melhor em outro livro, mas a sensação de solidão de Arthur em um mundo completamente isento de empatia, ela é criada minuciosamente. E essa solidão criada pela nossa sociedade em milhões de pessoas é muito real.

7. Doença Mental – O filme mostra a dificuldade de pessoas com doenças mentais de se reintegrar à sociedade, quando a sociedade cobra o impossível: que ele se comporte como é esperado. O simples ato de rir pode ser perigoso se você não controla.

8. O Coringa devia se mudar pra Cuba ou pra Venezuela – Eu adoro quando a nossa polaridade política de jardim da infância vai pra cultura pop, como um vídeo que vi perguntando se o Thanos era de direita ou de esquerda. Mas é, teve gente que não gostou do filme porque transformaram o Coringa em esquerdista, o que diz mais sobre a nossa insanidade do que do Coringa.

9. Mundo louco, Messias louco – É interessante como a insanidade de Arthur contagia a sociedade, formando um violento movimento de ódio aos ricos e poderosos, ampliado pelo descaso da sociedade.

10. Torcer pelo monstro – O assustador de um filme como Coringa, que mostra como um monstro é formado, é que você entende o monstro e torce por ele. Ele aguça o monstro que existe em nós. A gente pode não aprovar racionalmente as atitudes de Arthur, mas nosso coração aprova. Bem-feito. E esse é o primeiro passo para nos tornarmos monstros nós também.

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