Afrofuturism, de Ytasha L. Womack 📖 Leituras do Solari #135

Tentei fazer algo diferente nesta resenha. Obviamente não vou ser eu que vai ditar o que é afrofuturismo. O que vou tentar fazer é falar o que o livro me botou para pensar, mas, acima disso, deixar os trechos de Afrofuturism, de Ytasha L. Womack, falarem por eles próprios o máximo possível.

O termo afrofuturismo surgiu no ensaio Black to the Future, de Mark Dery, que começou a mapear pontos em comum na ficção científica produzida por negros norte-americanos, assim como a influência desse viés sci fi na arte, música e cultura negra. O livro Afrofuturism mostra como essas referências são muito mais amplas e antigas do que pode se imaginar em um primeiro momento. Uma definição do livro:

“Afrofuturistas redefinem a cultura e noções de negritude para hoje e para o futuro. Tanto como estética artística e uma base para teoria crítica, afrofuturismo combina elementos de ficção científica, ficção histórica, ficção especulativa, fantasia, afrocentrismo e realismo mágico com crenças não-ocidentais.”

O que mais me chamou a atenção na argumentação da autora é como a história da diáspora africana – que pode parecer nada relacionada com referências futuristas – é para todos os efeitos uma história real de abdução alienígena. Pense bem: um grupo de aliens em naves marítimas e com vantagens tecnológicas abduzem negros da África para outro planeta do outro lado do Atlântico.

Essa diáspora criou um corte cultural que afeta até hoje todos os negros das Américas. Foi formado um povo de milhões de negros sem história no novo mundo, ou que precisa brigar para criar sua própria história e se reconectar com sua história original. E aí que entra o afrofuturismo: quando não se têm história, é preciso criar a sua história, mas é possível criar a história que você quer. O afrofuturismo acaba sendo tanto sobre esperança com o futuro quanto com recuperação do passado

“O que eu gosto do afrofuturismo é que ele permite criar o nosso próprio espaço no futuro; nos permite controlar nossa imaginação. Um afrofuturista não ignora a história, mas ele não permite que a história restrinja os seus impulsos criativos.”

O livro traz um conjunto de ensaios como a influência da representatividade de sagas como Star Trek e Star Wars, arte contemporânea, dança, influência de cultura tribal no moderno, psicodelia e, talvez o trecho que tenha mais gostado, uma enorme contribuição para a música.

“Afrofuturismo a única estética orientada ao futuro que tem uma história tão rica na música. George Clinton, Sun Ra, Bootsy Collins, Jimi Hendrix, Lee Scratch Perry, Grace Jones, LaBelle, Outkast, Erykah Badu, Janelle Monáe, X-ecutioners, funk, dub, turntablism, soundclash, Detroit techno, Chicago house, até Coltrane e Miles Davis, todos já foram incluídos em um contesto afrofuturista—música que mudou os paradigmas.”

A história de Sun Ra foi a que mais me impressionou. Um músico de Jazz que dizia que era de Saturno e estava incrivelmente à frente de seu tempo criando sons espaciais com instrumentos próprios já nos anos 1950. E não pude deixar de lembrar do nosso Tim Maia em sua fase racional e sua mistura de música e misticismo etéreo.

“Toda essa conversa do funk ser cósmico, ele fez as pessoas desejarem ser cósmicas. Fez as pessoas quererem se educar sobre esses conceitos. Todo mundo ouvia George Clinton. Todo mundo queria estar na nave-mãe. As pessoas queriam empurrar adiante e avançar além de sua época. […] Sun Ra, George Clinton, e Lee Scratch Perry não inspiraram apenas gêneros musicais, mas crítica musical que explorava a forma tecnológica de se voltar ao som.”

E, claro, nenhuma discussão de afrofuturismo poderia deixa a escritora Octavia Butler. No grande clube do bolinha que foi a literatura de ficção científica do século 20, é mais comum encontrar protagonistas alienígenas de galáxias distantes do que uma mulher negra. Octavia Butler escrever histórias alternativas anti-coloniais do Egito Antigo ao futuro distante com personagens femininas negras multidimencionais. Trazendo não só uma diversidade ao sci fi, mas também escrevendo além das bordas do gênero – talvez essa a maior diferença de autores de minorias – indo ao realismo mágico, fantasia e além. E se tornou uma grande influência para um grande número de autoras atuais. Como uma escritora menciona no livro que reagiu ao ler um livro de Butler quando ainda era adolescente: “Meu deus, acho que ela é negra!” Não havia passado pela sua cabeça que uma mulher negra poderia ser uma escritora de ficção científica.

Uma crítica que faria ao livro em si é que ele tem um jeitão de TCC, meio duro em momentos e só citando exemplos e bibliografia. Ótimo como obra de referência para procurar durante a leitura por artistas, escritores e movimentos que eu pelo menos não conhecia. Mas alguns momentos pareceram para mim estarem “ticando os pontos” que deviam constar como referência, mas poderiam ser mais aprofundados com análises da autora e convidados que, quando aparecem, foram muito bem-vindas.

A importância do afrofuturismo é, como diz o livro, que ele pode trazer ideias que te levam a anos-luz de casa, ou anos-luz inconsciente adentro, apenas para te trazer de volta e mostrar que ela já tinha tudo que você precisava. E eu acho que é um mundo riquíssimo ainda não explorado, e criminalmente pouco explorado na cultura pop atual.

Eu adoro cyberpunk e sua temática humano contra máquina, mas confesso que muitas vezes é reciclado e batido. O afrofuturismo me parece o oposto disso. Um mundo de passado riquíssimo e de futuro de riqueza criativa potencialmente infinita. O filme do Pantera Negra foi só uma amostra do quão rico ainda é esse continente de ideias a ser explorado.

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