O japonês me fez redescobrir o prazer de escrever à mão

Uns quinze anos e uma vida atrás eu costumava escrever muito à mão no metrô. Antes mesmo de pensar em estudar jornalismo. Ia para o trabalho onde vendia luminárias, ou para as aulas de teatro e psicologia. Lotava cadernos de cabo a rabo com ideias, contos, cenas, artigos que nunca seriam publicados, listas de coisas a fazer. E tinha o hábito de depois – aquela clássica frase da terceira idade que se aproxima – “passar para o computador”.

Essa situação fez com o tempo surgir dois Solaris: um maluco que escrevia em fluxo de pensamento garranchos no chacoalhar do metrô lotado, e um “editor” que pegava depois esses manuscritos semi-compreensíveis e tentava transformá-los em um texto coerente.

Eu fui daqueles que, conforme a tecnologia foi avançando, foi a cada passo adotando o digital de cabeça. Os computadores foram ficando menores e mais convenientes de ligar e escrever. Você pode corrigir erros sem rasurar e copiar e colar pra mudar um parágrafo de lugar ao invés de encher de setas. O backup de nuvem para mim foi um sonho. Sempre fui meio paranoico em perder o que escrevo. Dá uma sensação horrível que eu perdi uma parte de mim mesmo.

Os cadernões do metrô acabaram virando caderninhos de anotação rápida de ideias porque ainda convenientemente cabiam no bolso. Com a chegada dos smartphones a era dos caderninhos entrou em declínio e passei a escrever tudo em apps de notas, que além de convenientes têm o tão sonhado backup na nuvem.

O tempo passa. Os cadernões de 15 anos atrás estão acumulando poeira em uma caixa na casa da minha mãe. E eu fui inventar de aprender japonês.

Você não se alfabetiza em idiomas como japonês e chinês, você vai se alfabetizando em um processo que leva alguns anos. O motivo é que você precisa gradualmente aprender os ideogramas. O japonês do dia a dia tem um pouco mais de 2 mil, e um chinês aprende em média uns 8 mil deles. Não preciso nem falar que esse decoreba não é nada fácil e não acontece do dia para a noite.

Existe um jeito de hackear a sua memória para decorar as coisas, que é usar ela em vários contextos diferentes. Ajuda muito aprender os ideogramas escrevendo-os, porque outra parte motora do cérebro precisa ser ativada e seu cérebro pensa “bom, então isso aí deve ser importante”.

Então nesse processo de aprendizado eu voltei para aquele mundo de papelarias, de escolher um caderno bonito, de comprar lapiseira, ponta e borracha. Até um estojinho eu arranjei. Acho que fazia literalmente vinte anos que eu não comprava um estojo.

Isso me deu vontade de escrever de novo à mão também em português. E comecei a manter um diário no dia 1 de dezembro de 2017, e de lá pra cá escrevi nele uma nova página todo santo dia. Sem corretor. Sem backup na nuvem. E graças a deus sem notificações.

E quem voltou? Aquele Solari do fluxo de consciência semi-compreensível da época dos cadernões. Esse diário virou menos um relato do que se passa na minha vida e mais o relato do que se passa na minha mente. Tem dias que eu só escrevo um sonho que tive – escrever o diário costuma ser a primeira coisa que faço no dia. Ou escrevo como foi o dia anterior, a ideia para um post, um começo de um conto, algo que o livro que estou lendo me botou para pensar. Este texto mesmo aqui, escrevi porque tive a ideia escrevendo no meu diário.

Todo dia antes de escrever no diário eu releio a entrada de um mês atrás, e isso tem sido uma revelação também. Algo que me deixava preocupadíssimo passa a não ter importância nenhuma um mês depois. O sonho que narrei já foi tão esquecido que parece que estou lendo o relato de outra pessoa. Alguns dias eu só escrevi sobre trabalho e consigo entediar a mim mesmo ao reler.

Quando chegar no dia 1 de dezembro de 2018 eu vou começar a ler as minhas entradas de um ano atrás. Vai ser interessante eu acompanhar dia a dia o quanto – ou se – eu mudei em um ano. E fico pensando daqui a cinco anos lendo as entradas de cinco anos atrás. Daqui a dez anos ler dia a dia a rotina de dez anos atrás.

É estranho como uma coisa puxa a outra. Como ler esses relatos do passado me ajudam a pensar sobre o futuro. Como esse ato tão simples de pegar uma caneta e escrever no papel parece abrir um novo mundo. Parece criar um filtro para entender o mundo. Sem corretor. Sem backup na nuvem. E graças a deus sem notificações.

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