O relato de um jornalista de guerra sobre o fascínio com a violência e o vício no sofrimento humano
Quando o assunto é sofrimento humano, a mídia pode ter uma atitude muito ambígua, se dividindo entre o papel de salvador e o de abutre. O livro “My War Gone By, I Miss It So”, do jornalista britânico Anthony Loyd, é uma relato assustador da guerra na Bósnia e Chechênia nos anos 90, da sede da mídia por sangue e do próprio vício de Loyd pela heroína e pelo conflito.
Este é um livro-reportagem que surpreendentemente poucos jornalistas brasileiros conhecem, talvez pela falta de uma tradução para o português, o que é uma pena. “My War Gone By, I Miss It So” deixou para trás todas as publicações desse gênero que eu li até hoje. A obra não adota o tom politicamente correto da mídia tradicional e não está nem um pouco preocupada com as firulas literárias do new jornalism. Ela apenas se propõe a ser uma viagem simples e direta para o inferno na Terra. E é isso mesmo que ela entrega.
O autor serviu o exército na Primeira Guerra do Golfo, e em seguida entrou na faculdade de jornalismo. Ao sair de lá, ele foi para a Bósnia em pleno conflito por conta própria, na esperança de cobrir o a guerra. Ele acabou vendendo algumas fotos para jornais e correspondentes estrangeiros no local e depois foi contratado diretamente. Loyd trata no livro na luta de seu vício com a heroína, e da forma como a adrenalina da guerra servia como um substituto para a droga. Como muitos veteranos e correspondentes de guerra, ele se sentia em casa mais nessas regiões completamente devastadas por genocídios, estupros em massa e limpeza étnica do que em Londres, onde não encontrava propósito para viver.
Um fato marcante deste conflito em particular é como a Guerra da Bósnia dividiu em lados opostos pessoas que se conheciam no dia-a-dia, como vizinhos e colegas de trabalho. Em muitos casos, os soldados que se enfrentavam tinha até mesmo estudado na mesma sala do jardim da infância. Como vemos neste trecho em que Loyd acompanha um dos bósnios ao lado sérvio, para negociar a troca de corpos de combatentes caídos nos últimos dias:
“Vocês estão com os nossos caras que desapareceram na quinta”, Beba disse. “Nós ouvimos que eles foram capturados vivos”.
“Não. Nós temos os três da semana anterior que você sabe, nenhum outro. Você sabe como as linhas estão por aqui. Se eu ouvir alguma coisa, te aviso”
“Na mesma hora, no mesmo canal?”
“Na mesma hora, no mesmo canal. Foda-se, vamos beber alguma coisa.”
A conversa mudou, e os dois homens começaram a falar de amigos mútuos. Como está Huso? Huso foi ferido. Merda. Mladen? Ele saiu da Bósnia no mês passado, é com a família, foi para Novi Sad. Que sortudo o filho da puta. O irmão de Beba havia sido ferido seriamente dias antes, atingido na cabeça por um franco atirador sérvio em Turbe. A notícia pareceu entristecer bastante o oficial sérvio.
“Eu sinto muito”, ele disse, balançando a cabeça.
“I mene” – eu também – respondeu Beba.
O que definia esses dois grupos? Raça? Eles eram da mesma raça. Cultura? Eles eram todos filhos da era Tito. Religião? Nenhum deles tinha a menor idéia dos preceitos da sua fé, fosse ortodoxa ou islâmica. Eles eram irmãos eslavos, atirados um contra o outro por bandeiras mortas há muito, levantadas por homens cujo único desejo era poder, vlast, e dessa forma criaram um circulo perpétuo de medo e morte que cresceu na Bósnia, se alimentando do país como um tumor maligno. Encontros como esse não apresentavam ódio. A guerra se baseava em polaridade e separação.
Eu fiquei quieto na viagem de volta. Era mais fácil entender um mundo de Cetniks, “turcos” e Ustasa do que este.
Quando li esse livro pela primeira vez, sequer tinha a intenção de estudar jornalismo, e mais tarde ele teve um grande peso na minha decisão. Hoje confesso que minhas prioridades mudaram um pouco, e não possuo mais sonhos de viajar o mundo em busca de aventuras (Era jovem. Um bom livro e uma taça de vinho ao lado da lareira hoje me basta😉). Mas “My War Gone By, I Miss It So” abriu os meus olhos para a facilidade com a qual o ser humano pode encontrar motivos para odiar aquele que era seu colega de brincadeiras na rua poucos anos atrás.
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