Branca dos Mortos e os 7 Zumbis, por Abu Fobiya 📖 Leituras do Solari #192

“Branca do Mortos e os Sete Zumbis” cria versĂ”es de terror para os contos de fada tradicionais popularizados pelos irmĂŁos Grimm. O livro Ă© escrito por Abu Fobiya, heterĂŽnimo “amargurado e pessimista” de FĂĄbio Yabu, autor infantil conhecido por sĂ©ries como “Princesas do Mar”.
“O objetivo do heterĂŽnimo Ă© nĂŁo confundir as crianças e pais que leem meus outros livros”, disse Yabu ao UOL. “O FĂĄbio Yabu vai continuar escrevendo livros infantis, enquanto o ‘Abu Fobiya’, que em ĂĄrabe e grego quer dizer ‘pai do medo’, vai assinar obras de terror voltadas para os adultos”.
O escritor Neil Gaiman, citado pelo autor como uma de suas influĂȘncias, escreveu em uma de suas coletĂąneas a histĂłria de Branca de Neve do ponto de vista da madrasta, retratando Branca como uma criatura monstruosa e vampiresca que seduz o rei. Gaiman disse que o efeito desejado Ă© que sua versĂŁo se torne uma espĂ©cie de vĂ­rus que infecte a mente do leitor e o impeça de pensar na histĂłria original com a mesma inocĂȘncia de antes.
Efeito semelhante Ă© extrapolado por Yabu para histĂłrias como Cinderela, Rapunzel, Bela Adormecida e ChapĂ©uzinho Vermelho. Yabu minimiza esse tipo de “infecção”, no entanto. “A minha versĂŁo da Branca de Neve na verdade Ă© uma fração de um universo muito maior, que nem poderia macular os contos de fadas originais atĂ© porque eles sĂŁo versĂ”es bem tenebrosas tambĂ©m”.
Pelo tĂ­tulo “Branca dos Mortos e os 7 Zumbis”, o leitor pode achar que Yabu deu um tratamento semelhante a “Orgulho e Preconceito e Zumbis”, em que trechos da histĂłria de Jane Austen sĂŁo modificados. O livro de contos de Yabu funciona mais como variaçÔes de um mesmo tema, em que o autor pode se distanciar e se aproximar da histĂłria conforme deseja para ter um resultado ao mesmo tempo novo e familiar.
Apesar da linguagem mais infantil tĂ­pica dos contos da carochinha, vemos logo nos primeiros textos que Yabu deixou mesmo as princesas no fundo do mar. FlagelaçÔes e amputaçÔes sĂŁo descritas com detalhes dignos de filmes de horror B e as ilustraçÔes de cada conto – algumas bem perturbadoras – ajudam formar durante a leitura uma tensĂŁo desesperadora, claustrofĂłbica e sombria.
Metade da diversão estå em começar a ler e imaginar onde o conto do livro vai começar a divergir do original. Em alguns casos a vítima da historinha é quem se torna o monstro. Em outros, a revelação final da identidade do protagonista faz o conto inteiro fazer sentido, como quando o culpado é descoberto em uma história detetivesca.
Ajuda bastante tambĂ©m o fato de que Yabu conhece bastante suas referĂȘncias com literatura de terror. Temas recorrentes sĂŁo a culpa tĂ­pica de Poe, o medo do desconhecido de Lovecraft e a atmosfera onĂ­rica de Gaiman. Conhecimento de nenhum autor Ă© necessĂĄrio para apreciar o livro, mas os fĂŁs vĂŁo apreciar as referĂȘncias e homenagens que pipocam pelo texto.
Os contos também são interrelacionados. Personagens de um aparecem como coadjuvantes em outros ou são mencionados em tom de lenda. Isso ajuda a criar a ilusão de que elas fazem parte de um mundo coeso, como se as histórias fossem o resultado de uma tradição cultural ao invés de inventadas por um autor.
“Branca dos Mortos e os Sete Zumbis” parece um artefato borgiano, um objeto de um universo paralelo que de alguma forma atravessou as rachaduras da realidade para cair no nosso. Talvez um livro de historinhas usado para torturar crianças antes de dormir em um mundo um pouco mais infernal que o nosso.

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