HistĂłria de sci fi hard na qual Brasil Ă© potĂŞncia traz polĂtica, ecologia e intriga
Imagine que sĂ©culo 23 o Brasil Ă© uma potĂŞncia mundial que toma controle de toda a AmĂ©rica do Sul e do Norte, que foi devastada por mudanças climáticas. E nĂŁo sĂł o impĂ©rio brasileiro controla com punho de ferro verde-amarelo metade do globo na histĂłria de The Quiet War, como os lĂderes tem grande semelhança de estilo governamental com certo um clĂŁ polĂtico lá do MaranhĂŁo. Sarneys no espaço. Isso sim Ă© que Ă© distopia.
Esse impĂ©rio conhecido como Grande Brasil, de fortes tendĂŞncias facistas, faz um contraponto com as democracias das colĂ´nias que se estabeleceram nas luas de saturno, JĂşpiter e outros planetas do sistema solar, povos chamados de outers. O livro acompanha as maquinações polĂticas entre brasileiros e outers conforme os brazucas tentam forçar uma guerra e anexar as nações fora da Terra, que apesar de extremamente ricas culturalmente e de tecnologia avançada, nĂŁo possuem a força bruta militar dos tupiniquins.
As populações das colĂ´nias sĂŁo interessantes. Colonizadas originalmente por cientistas em domos protetores, sua população abraçou com naturalidade a manipulação genĂ©tica para se adaptar a outras condições atmosfĂ©ricas ou de gravidade ou sĂł por motivos estĂ©ticos. E possuem uma democracia radical onde todos discutem fervorosamente qualquer assunto numa internet, alĂ©m de terem diversos estilos artĂsticos inusitados. Há tambĂ©m uma grande separação geracional na sociedade entre os velhos, que fazem parte dos colonos originais que vieram da Terra, e os jovens que já nasceram por lá. Os primeiros temem um enfrentamento direto com os terráqueos enquanto os jovens sĂŁo agressivos e tentam forçar o confronto.
| “ Sarneys no espaço. Isso sim é que é distopia.” |
O autor Paul McAuley Ă© pesquisador em biologia e grande parte do lado hard do livro se dá pelas minuciosas considerações sobre a reconstrução da flora tanto na Terra como em jardins das colĂ´nias espaciais. Assim como longas descrições de mundos aquáticos, luas congeladas, etc. Por esse motivo, nĂŁo Ă© um livro pra qualquer um, pois boa parte das 400 páginas de The Quiet War estĂŁo carregadas com parágrafos gigantes descrevendo o ciclo de vida de bactĂ©rias que formam o solo, a composição quĂmica de plantas, proteĂnas modificadas, etc.
É um livro muito mais sobre a preparação para a guerra do que a guerra em si, que quando ocorre é rápida e brutal (me lembrou Dogs of War nesse sentido). Os personagens são variados e bem escritos e se encaixam em arquétipos reconhecidos como O Cientista, O Soldado, O Diplomata, mas com bastante profundidade de biografia e motivações para não serem clichês.
| “…lembro de ter engasgado feio com o café ao ler a descrição da nave de carga Luis Inácio da Silva e seu motor de fusão experimental.” |
Tenho a impressão que o escritor escolheu o Brasil como potência apenas para ter um império mais exótico, e mostrar como as nações desenvolvidas podem perder a hegemonia no caso de grandes mudanças climáticas. Mas o fato do livro representar um Brasil futurista cria diversos momentos inadvertidamente cômicos para os leitores brazucas. Em um exemplo entre muitos, lembro de ter engasgado feio com o café ao ler a descrição da nave de carga Luis Inácio da Silva e seu motor de fusão experimental. Só faltava aparecer o cruzador espacial Duque de Caxias em algum lugar da narrativa.
Um bom livro de ficção cientĂfica hard que mistura intriga polĂtica, personagens multifacetados, sociedades exĂłticas, mas Ă© sĂł para quem tem bastante interesse por parágrafos e parágrafos de descrições de luas, planetas e conceitos biolĂłgicos.
Deixe um comentário