O Problema dos Três Corpos, de Cixin Liu 📖 Leituras do Solari #146

O Problema dos Três Corpos é um dos livros mais populares de ficção científica chinesa, que parte do pano de fundo da Revolução Cultural para o questionamento dos limites da ciência, conforme cientistas são confrontados com uma possível “muralha” que impede o avanço do conhecimento.

O livro tem um início poderosíssimo, mostrando a caça às bruxas contra o conhecimento considerado reacionário, ou simplesmente ocidental, durante a Revolução Cultural Chinesa nos anos 1960. Até conclusões teóricas baseadas na física quântica de Einstein poderiam fazer um professor ser considerado um reacionário e linchado em praça pública pelos próprios alunos.

A história avança em ritmo de thriller, envolvendo um pesquisador de nanotecnologia que se depara com acontecimentos inexplicáveis pela ciência e uma possível guerra contra forças desconhecidas que aparentam ter o poder de manipular as próprias leis básicas do universo. Alternado a isso, temos capítulos no videogame Three Body, um bizarro Second Life virtual que simula a ascensão e queda de centenas de civilizações em um planeta que tem eras caóticas. Onde é impossível prever quando e como o sol vai nascer e quanto tempo os raros momentos de estabilidade durarão.

As descrições de conceitos e tecnologias foram um dos pontos fortes do livro para mim. Como um imperador chinês criando um computador humano com seu exército de 30 milhões de soldados levantando e abaixando bandeirinhas brancas ou pretas representando os 0 e 1s computacionais. Explicações sobre a radiação do universo, universos escondidos no microcosmo, nanofios menores que um cabelo mas capazes de cortar qualquer metal, o caos matemático de tentar prever as interações gravitacionais entre três corpos celestes.

Esse tema de desconfiança com o pensamento científico teórico é recorrente pelo livro, defendendo que os estudos das leis fundamentais do universo passam a requerer fé. Por exemplo, a lei da gravidade. Não sabemos como ela funciona, mas observamos ela inúmeras vezes, portanto a tratamos como “lei”. Se eu solto uma caneta eu “sei” que ela vai cair no chão, mas não temos a garantia que ela vai funcionar toda vez.

Esse embate entre teórico e prático me pareceu uma perspectiva particularmente chinesa por parte do autor Cixin Liu. É uma dicotomia muito presente na própria ideia do ying yang, de opostos que se opõem e ao mesmo tempo possuem a raiz um do outro, assim como nos pilares filosóficos chineses que vivem lado a lado no pensamento chinês há mais de 2 mil anos: o confucionismo x taoísmo. O Pode-se dizer que o confucionismo é o lado mais “prático” ao lidar com questões sociais, enquanto o taoísmo é o lado “teórico”, se preocupando com a busca por significado.

Esses dois pilares também aparecem nos personagens. O meu favorito é Dai Shi, um policial, digamos, pouco convencional, e potencialmente violento, mas de resultados, e que representa o senso comum e sabedoria popular em meio ao oceano de cientistas. Ele próprio se descreve como “corajoso por ignorância” por não entender, e nem se preocupar, com as consequências científicas que deixam os cientistas de cabelo em pé e mostra uma astúcia instintiva maior que a dos letrados a sua volta. Ele é a sabedoria entre a inteligência.

Por parte da leitura eu fiquei com a impressão do livro ter uma ideia meio elitista do conhecimento. Sociedades secretas e até os líderes do governo falam recorrentemente como fossem de uma “elite intelectual” e se estivessem numa situação privilegiada de compreensão do universo em relação ao chamado “homem comum”. Mas acho que Dai Shi é meio que o ying desse yang. Mostra como a chave para a sobrevivência e avanço da humanidade depende da interação entre altos conceitos e a boa e velha astúcia humana.

Minha principal crítica com relação ao livro é que achei o final um tanto anticlimático. Após um crescendo muito misterioso e bem construído, a revelação das forças por trás dos estranhos acontecimentos não brilhou tanto. Acho que o principal motivo é incluir uma tecnologia tão avassaladoramente avançada que um grupo que a dominasse poderia ter matado toda a oposição instantaneamente, ou sequer precisaria dominar a Terra em primeiro lugar. É quase como seres humanos usando uma escavadeira para dominar um formigueiro, quando nós nem precisamos de um formigueiro em primeiro lugar.

Mas apesar desse final que me atraiu menos, O Problema dos Três Corpos fez juz à fama de ficção científica de primeira qualidade pelo ritmo de thriller dosando o mistério, intriga e grande pesquisa de conceitos científicos, além de pelo menos um personagem muito memorável. A série continua em mais dois livros, e a Amazon comprou os direitos dos livros e vai investir nada menos de US$ 1 bilhão para transformar essa ficção científica chinesa em série. Vamos ver no que vai dar.

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