Realidades Adaptadas, de Philip K. Dick ūüďĖ Leituras do Solari #143

Realidades Adaptadas √© uma colet√Ęnea da editora Aleph de contos de Philip K. Dick que serviram de base para filmes. Temos aqui o embri√£o de longas como Minority Report, Screamers, O Vingador do Futuro e uma s√©rie de outros thrillers tecnol√≥gicos que voc√™ nunca ouviu falar ou nem fazia ideia que eram baseados na obra de Philip K. Dick em primeiro lugar.

Quem acompanha as resenhas sabe que sou grande f√£ de romances de Philip K. Dick como Androides Sonham com Ovelhas El√©tricas? e Um Reflexo na Escurid√£o, ambos TAMB√ČM com adapta√ß√Ķes no cinema. A minha impress√£o √© que depois do sucesso de Blade Runner, que veio do Ovelhas El√©tricas, produtores estavam em busca do “pr√≥ximo” Blade Runner, ou no m√≠nimo os contos e livros de Philip K. Dick tem apelo cinematogr√°fico instant√Ęneo. Afinal, envolvem indiv√≠duos perseguidos por governos ou conspira√ß√Ķes paranoicas em que a realidade √© questionada. Mesmo nos filmes do g√™nero que n√£o nasceram diretamente de K. Dick, de A Rede, Inimigo do Estado a Transcendente, a influ√™ncia do autor pode ser sentida.

Ao ler esses contos em pleno século 21 é fácil que eles pareçam ser só mais um roteiro desses techno thrillers. Mas veja as datas de publicação. A maioria dos contos foi escrita nos anos 1950, quando boa parte da ficção científica era histórias pulp em Marte ou filmes preto e branco de atores com fantasias de ET de borracha. Nesse sentido, não é de se estranhar que esses roteiros tiveram tanto sucesso no cinema depois de 30, 40 anos. A ficção científica de Philip K. Dick estava pelo menos meio século adiantada de seu tempo.

Dito isso, e apesar de ter gostado dos contos (mais sobre cada um abaixo), continuo preferindo os romances que li de Philip K. Dick. Talvez em parte porque, nos contos, o autor n√£o tem espa√ßo para soltar realmente as asas na constru√ß√£o de mundo, e tamb√©m por eles me darem a impress√£o de que ele ainda n√£o tinha encontrado completamente a sua voz. Me deram a impress√£o de um K. Dick ainda em estado bruto, ainda mais pr√≥ximo da fic√ß√£o cient√≠fica convencional. A contesta√ß√£o da realidade e mem√≥ria j√° est√° aqui em alguns contos, mas √© uma contesta√ß√£o de uma mem√≥ria “limpa” como a de um computador, quando em seus livros posteriores a realidade √© algo mais on√≠rico, lis√©rgico. Parece um autor ainda n√£o foi influenciado pela contracultura dos anos 1960, que tornaram a sua fic√ß√£o cient√≠fica praticamente um “sci fi que tomou √°cido” no melhor dos sentidos.

Cada conto no livro tem um breve hist√≥rico do filme que gerou, mas gostei mesmo de um postf√°cio final com considera√ß√Ķes do pr√≥prio K. Dick sobre o que achava de cada conto.

Lembramos Para Voc√™ a Pre√ßo de Atacado (O Vingador do Futuro) – O conto parte por um caminho um tanto diferente do filme, mais √† fundo na contesta√ß√£o do que √© real. Traz muitas ideias interessantes como: Se voc√™ contrata algu√©m pra te vender uma mem√≥ria, como voc√™ sabe se ele j√° n√£o te vendeu uma mem√≥ria antes? E uma das minhas passagens favoritas do livro: ‚Äúuma ilus√£o por mais convincente que fosse n√£o passava de uma ilus√£o. Pelo menos em termos objetivos. Em termos subjetivos era totalmente o oposto‚ÄĚ.

A Segunda Variedade (Screamers) РNuma Terra devastada por um conflito entre EUA e União Soviética, máquinas criadas como armas acabam evoluindo variedades próprias e aprendem a replicar o comportamento humano para fins de infiltração. Um conto que mistura a paranoia de infiltração comunista típica da guerra fria com o tema do perigo da inteligência artificial. Quando a inteligência deixa de ser humana podemos não gostar de como ela nos vê.

O Impostor (O Impostor) – Um conto sobre um cientista que √© acusado de ser um rob√ī que se apossou do corpo, mem√≥ria e da identidade do cientista original. Novamente traz a quest√£o de que se voc√™ n√£o consegue ver a diferen√ßa entre algu√©m real e uma m√°quina… a diferen√ßa importa?

O Relat√≥rio Minorit√°rio (Minority Report) – O conto se concentra menos nas persegui√ß√Ķes do que no filme de Tom Cruise e traz ideias como: o quanto saber uma previs√£o muda a previs√£o? O quanto saber uma previs√£o CAUSA a previs√£o? Como o exemplo de √Čdipo Rei, que s√≥ dormiu com a m√£e e matou o pai porque estava justamente tentando evitar a profecia divina de que faria isso. O conto tamb√©m aborda mais a tens√£o entre o ex√©rcito e a pol√≠cia, assim como a natureza metaf√≠sica de voc√™ culpar algu√©m por um crime que ela vai cometer. Mas se voc√™ a impede, crime nenhum √© cometido para ela ser culpada.

O Pagamento (O Pagamento) РThriller sobre um homem que tem as memórias de dois anos apagadas voluntariamente após trabalhar para uma empreiteira, e ao invés da bolada de salário recebe objetos aparentemente sem valor como pagamento. E conforme seu próprio pedido, mas ele não lembra por que pediu. O conto levanta uma ideia intrigante: quanto vale algo comum como um copo de água, por exemplo? Um dia, se você está confortável em seu apartamento escrevendo uma resenha de livro, pode valer alguns centavos. Outro dia, se você está morrendo no deserto, pode valer todo o dinheiro do mundo.

O Homem Dourado (O Vidente) – O meu conto favorito da colet√Ęnea. Um agente do governo investiga “mutantes” no interior dos EUA, numa atmosfera que lembra muito a ca√ßa √†s bruxas comunista dos anos 1950. E h√° uma descri√ß√£o fascinante de um mutante que esquece do passado, mas “lembra” do futuro, quase como um pr√©-pensar. Ou melhor, n√£o pensa, porque pensar √© imaginar cen√°rios para o futuro. Se voc√™ j√° v√™ o futuro pode simplesmente reagir por um reflexo; pensar √© irrelevante. E voc√™ √© imune a todo o medo, pois j√° sabe o que vai acontecer.

Equipe de Reajuste (Agentes do Destino) – Um conto mais curto sobre como saber a realidade pode n√£o ser t√£o bom quanto achamos. Ou que pelo menos alguns podem escolher felizes viver numa ilus√£o.

Um coment√°rio em “Realidades Adaptadas, de Philip K. Dick ūüďĖ Leituras do Solari #143

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  1. Muito boa a resenha, me incentivou a compra para ler essa obra dele, mais antes tenho que termina A Revolu√ß√£o dos Bichos por que n√£o consigo ler dois livro de uma vez kkk. E o que me fascina nos livro de fic√ß√£o foi o que vc escreveu aqui “os contos e livros de Philip K. Dick tem apelo cinematogr√°fico instant√Ęneo. Afinal, envolvem indiv√≠duos perseguidos por governos ou conspira√ß√Ķes paranoicas em que a realidade √© questionada.” e esse autor tem de sobra. Tenho um livro dele aqui em casa ubik n√£o sei se vc leu mais fica dica.

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