A Cidade e A Cidade, de China Miéville  Leituras do Solari #214

Muitas vezes eles voltavam, nas ruas divididas da Cidade Velha ou da Cidade Velha, para o mesmo espaço que haviam ocupado minutos antes, embora em um novo domínio jurídico. Se alguém precisasse ir a uma casa fisicamente ao lado da sua, mas na cidade vizinha, era em uma estrada diferente em uma potência hostil. Isso é o que os estrangeiros raramente entendem. Um morador de Besź não pode andar alguns passos ao lado de um altar sem criar uma Ruptura.

A Cidade e a Cidade começa como uma história típica de investigação de detetive, um corpo desfigurado de uma mulher é encontrado em um beco. Aos poucos você vai se revelando o mistério maior da divisão entre as duas cidades, que compartilham um mesmo espaço, mas cujas populações não interagem por uma barreira psicológica e jurídica.

O livro acompanha o inspetor Tyador Borlú de uma cidade autônoma localizada no leste Europeu chamada Besźel. A investigação de Borlu o leva até a cidade irmã de Besźel, Ul Quoma, e buraco adentro de uma conspiração de uma lendário terceira cidade, Orciny, que se esconderia em plena luz do dia na ambiguidade de jurisdição entre A Cidade e A Cidade.

Os indícios dessa separação vão aparecendo aos poucos no livro. O detetive Borlú vê alguém que, por algum motivo ainda não claro para o leitor, não devia ter visto e propositalmente a ignora. E vai ficando claro que não só ele, mas todos os personagens estão constantemente “desvendo” uma realidade com a qual dividem o mesmo espaço. Duas cidades dividindo um mesmo espaço geográfico, as mesmas ruas, mas sem interação nenhuma entre suas populações. É quase como a separação de Berlim em Oriental e Ocidental após a Segunda Guerra, mas o muro aqui é psicológico, um tabu mental.

O ponto alto do livro para mim é justamente a minuciosa construção desse mundo fracionado nas cidades de Besźel e Ul Quoma apenas na cabeça de seus habitantes. Estrangeiros precisam ser treinados no desver, uma mesma rua pode ser ao mesmo tempo movimentada em uma cidade e deserta em outra, existe um lag nas chamadas internacionais entre as cidades, sendo que provavelmente estão os dois falantes estão no mesmo quarteirão. Tem momentos que os personagens até precisam “descheirar” o odor de comidas típicas sendo vendidas nas ruas da cidade vizinha. A única ligação entre as Cidades é uma praça fronteiriça que você entra de um lado em Besźel e sai do outro lado na jurisdição de Ul Quoma e vice-versa.

Eles conheceriam, pelo menos em linhas gerais, os principais signos de arquitetura, roupas, alfabeto e maneiras, cores e gestos fora da lei, detalhes obrigatórios – e, dependendo de seu professor em Besź, as supostas distinções nas fisionomias nacionais – distinguindo Besźel e Ul Qoma, e seus cidadãos.

Essa separação é firmemente policiada por uma misteriosa entidade chamada Breach. Eles conseguem transitar livremente entre as Cidades. A capacidade de observação de Breach chega a parecer sobrenatural, mas é difícil saber o quanto eles são temidos pelo tabu psicológico da separação. O nível de doutrinação na população para impedir a ruptura faz com que ela respeite a divisão mesmo em ambientes privados.

Eu já li Perdido Street Station de China Miéville, que é uma “weird fantasy” no máximo, com uma construção de mundo mirabolante, mulheres com cabeça de formiga e aranha interdimencional. Aqui chama a atenção como tudo é comum, usam computador, celular e email, e a única coisa fantastica é essa parada da divisao das cidades

Esse choque entre o comum e um tabu tão forte é o que torna o livro tão fascinante. Me lembrou a diferença que faz você olhar uma foto do planeta Terra e um mapa-mundí com todas as arbitrárias separações entre países. Como uma simples linha visível apenas em um mapa divide povos com idiomas diferentes, países ricos ou em desenvolvimento, democracias e ditaduras. A Cidade e a Cidade escancara essa capacidade – ou necessidade – humana de dividir o mundo em jurisdições. De como nós podemos dividir um mesmo espaço e ainda assim considerar nosso vizinho O Outro.

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