The CRPG Book, por Felipe Pepe – Leituras do Solari #207

Quando eu comecei a trabalhar com jornalismo de games mais de uma década atrás eu percebi uma diferencia de referências com os meus colegas. Eles, e boa parte do público gamer brasileiro, eram muito mais centrados em consoles, sendo que eu fui primariamente um gamer de computador pelos anos 1990 e 2000, salvo alguns pulos no Super Nintendo. E o meu gênero favorito foram os RPGs.

O mouse e teclado permitiam uma experiência diferente dos consoles, eu diria que mais profunda, muito mais ágil para navegar por mapas e menus. O que culminou com o meu amor por Baldur’s Gate 2, talvez o jogo que mais tenha jogado em horas. O cuidado com roteiro e diálogos era a perfeita combinação do meu amor pela leitura, como em Planescape Torment, na minha opinião o segundo jogo mais bem escrito, atrás apenas de Disco Elysium.

E The CRPG Book captura o amor por esse tipo de jogo, traçando uma linha desde os primórdios do meio dos anos 1970 até 2015, um pouco antes do livro ser lançado. Apesar da edição britânica, o livro foi organizado por um brasileiro, Felipe Pepe, que por sinal é muito ativo no Twitter mostrando principalmente curiosidades e o lado B de jogos obscuros, muitos que sequer tiveram lançamentos em inglês.

O livro está disponível para ser lido gratuitamente em PDF, mas a versão física é belíssima. A arte em pixel até dos títulos dos primórdios do gênero cai muito bem nas páginas, fora as informações que contextualizam a época de cada título, assim como o momento tanto da tecnologia como da sociedade em cada período de 5 em 5 aos. É realmente uma obra de amor ao gênero, resultado de quatro anos de trabalho e a colaboração de 119 voluntários, que resenharam os mais de 300 jogos apresentados no livro.

Além das resenhas dos livros em si, o livro traz artigos adicionais muito interessantes, gostei em particular do sobre cartografia, de como muito jogos dos anos 1980 eram impossíveis de jogar sem você mapear labirintos com papel e caneta, um absurdo se pensarmos nos jogos atuais repletos de minimapas e indicações à prova de idiotas de onde ir para a missão.

Existe uma excelente combinação de inegáveis clássicos que mudaram os rumos do gênero a curiosidades hoje esquecidas, mas que sutilmente também influenciaram a história do gênero.

The CRPG Book captura belamente o meu amor pelos RPGs. Existe uma coisa que os jogos fazem que cinema e literatura nunca vão conseguir replicar: a questão da escolha. Muitos livros mudaram a minha vida, mas nenhum fez eu me sentir arrependido por ter feito mal a alguém. A questão da escolha muda completamente a experiência de observar passivamente o que acontece com outra pessoa. Por mais que existam livros e filmes de enorme intensidade, nenhum requer que você tome uma decisão, e pague o preço por ela.

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