Amexica, por Ed Vulliamy 📖 Leituras do Solari #169

Um excelente livro sobre a ultraviolenta região fronteiriça do México com os EUA, uma ferida aberta na qual o terceiro mundo sangra no primeiro

Comprei Amexica esperando ler um livro sobre o narcotráfico em uma das regiões mais violentas do planeta, a fronteira do México com os EUA. O livro trouxe isso, mas eu me surpreendi como ele vai muito além, abordando o tema de pontos de vista diversos como cultura pré-colombiana, sincretismo religioso, a economia baseada nas fábricasmaquiladoras, hospícios, a indústria norte-americana de armas, orgulho latino, a realidade dos caminhoneiros, cultura de mutilações e machismo.

Imagine estar indo ao trabalho e encontrar seis corpos torturados e enforcados em um viaduto e as autoridades só se darem ao trabalho de tirá-los dali umas cinco horas depois. Um lugar em que a corrupção policial é tão grande que descobriram que o carro oficial de um chefe de polícia – com insígnia da corporação e tudo – era roubado. Outro exemplo que só é a ponta desse iceberg de sangue, em 2009 um homem foi condenado por dissolver nada menos que 300 corpos em um tonel de ácido. O apelido dele era “sopeiro”. As próprias mutilações são regidas por “modas” recorrentes e são mensagens que podem ser lidas como um bilhete e não são raros casos desses que fazem para o Youtube, colocados com orgulho pelos cartéis.

Assombra também a grana e poder de fogo dos narcos, que podem ter trocas de tiros de oito horas com o exército mexicano. Encontraram no grupo de um traficante conhecido como El Hummer 428 armas de todos os tipos (incluindo 228 rifles de assalto e metralhadoras automáticas e semiautomáticas) mísseis antiaéreos, 287 granadas e bombas e meio milhão de balas.

Amexica mostra muito bem a relação entre o consumo nos EUA e a produção no México. De drogas, também, mas revelando de forma bem convincente como a relação esquizofrênica dos EUA com o México – de precisar de mão de obra barata, mas não gostar que os mexicanos insistam em continuar a existir em seu solo além do expediente de subtrabalho – é a base para a violência no México.

Veja a matemática de uma trabalhadora que costura chinelos em uma maquiladora, em um ambiente no qual até o tempo de banheiro (duas pausas de 1 minuto por dia) são controladas. Ela costura sozinha 56.280 chinelos por dia (84 por minuto) e ganha 600 pesos por semana. Ou seja, ganha o equivalente a US$ 0,00011 por chinelo costurado. Isso sob a constant ameaça dos empregados de fechar a fábrica e ir para a Ásia, onde é mais barato ainda.

É muito comentado o tráfico de drogas do México para os EUA, mas um assunto bem menos abordado é das armas que fazem o trabalho inverso. O lobby armamentista faz vista grossa e o assunto é considerado até mesmo um tabu político em Washington.

Amexica traz uma definição poderosa da região fronteiriça entre México e EUA, e uma que acho que poderia ser extrapolada para outros lugares: “É uma ferida aberta, onde o Terceiro Mundo se esfrega contra o Primeiro e sangra. E antes que uma casca se forme, a hemorragia prossegue e o líquido vital dos dois países se mistura para formar um terceiro país, uma cultura de fronteira. Améxica”.

Não posso pedir mais de um livro. Amexica trouxe tudo o que eu pensei que traria e tanto que eu sequer imaginava, de um jeito que com a leitura terminada me sinto inocente e tolo com minhas expectativas iniciais. Segue um trecho abaixo:

A white SUV was found abandoned, and inside it a stew of mutilated bodies – hacked, chopped, castrated, decapitated; literally, cutlets of severed head, arm, leg and torso crammed into the vehicle with no relation one to the other until they were matched by the forensic police. Unpublishably gruesome pictures of the discovery and its aftermath were taken by the authorities, showing the deeply disturbing sight of human pieces laid out on a tarpaulin across the floor. It is a scene from Hell from which even Hieronymus Bosch in his most vividly imaginative moments of pious terror would have flinched.

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