Stephen King: Coração Assombrado, por Lisa Rogak 📖 Leituras do Solari #168

Resenha publicada originalmente no UOL Entretenimento

Biografia de Stephen King mostra como o autor se exorciza na escrita

Um antigo programa humorístico dos anos 1990 imaginou em uma esquete humorística um dia do cotidiano de Stephen King. Ele sentava na mesa, pegava a na colher e imaginava um ataque de talheres assassinos. Olhada a tigela e se desesperava com uma possível invasão de cereais matinais psicopatas. Nos objetos mais mundanos e inofensivos, Stephen King via morte, terror e medo.

E a verdade não está muito longe disso, como mostra “Stephen King: Coração Assombrado” (editora Darkside), biografia do escritor que está sendo lançada no Brasil. O livro de Lisa Rogak, indicado ao prêmio Edgar Allan Poe de melhor biografia, mostra como o escritor talvez tenha se tornado um mestre do terror porque é aterrorizado por tudo. Seus medos incluem escuro, cobras, ratos, terapeutas, voar, o número treze, lugares fechados e bloqueio de autor. Escreveu cerca de 63 livros e uma infinidade de contos. São tantos que tem livros inteiros ele sequer lembra de ter escrito, apenas em parte por seus brancos de memória por cocaína e álcool.

“Coração Assombrado” se diz uma biografia não autorizada, mas contou com o auxílio do autor. Apesar de abordar temas espinhosos como o abandono na infância – o pai de King saiu para “comprar cigarros” e nunca mais voltou – o alcoolismo e vício em cocaína do escritor, ela é comportada. Talvez um reflexo do próprio King já ter começado a enfrentar esses demônios faz tempo. Fica mais difícil fugir dos seus demônios quando você os escancara para milhões de pessoas lerem.

A trajetória do escritor é acompanhada de forma minuciosa, chegando a contemplar a vida dos pais de King e uma breve história do Estado norte-americano do Maine, palco da maioria dos livros de King e onde ele foi criado e morou a maior parte de sua vida. A obra aborda os anos de penúria antes do lançamento de “Carrie: A Estranha”, o auge nos anos 1980 – quando chegou a ter de uma vez oito livros na lista de dez mais vendidos do New York Times -, a relação com fãs malucos que acampavam de frente à sua casa, indo até os dias atuais. E faz um paralelo com as diversas histórias de King e sua vida. O que faz bastante sentido para um autor tão prolífico que sua biografia se confunde com suas histórias.

O humor de King transparece no livro. Alheio a elitismo literário, se define como “o Big Mac da literatura”. Ex-alcoólatra, diz nunca entender porque alguém bebe socialmente: “É como beijar a sua irmã”. “Coração Assombrado” mostra King como um autor que não escreve, mas que se exorciza, como se precisasse colocar no papel seus demônios para se livrar deles.

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