Bar None; de Tim Lebbon đź“– Leituras do Solari #163

Obra curta mistura o sobrenatural com todas as lembranças da humanidade e excelentes cervejas

Em um futuro nĂŁo muito distante, praticamente toda a humanidade foi aniquilada por um vĂ­rus mortal. Sim, de novo. Mas Bar None consegue trazer algumas coisas novas a este clichĂŞ pĂłs-apocalĂ­ptico.

A história gira em torno de cinco sobreviventes que se alojaram em uma mansão abandonada que pertencia a um arquiteto de certo renome na beira de uma cidade britânica. O motivo para a escolha da morada é simples: o local possuía uma vasta despensa com vinhos, cerveja e comida. Eles passam os seis meses após o fim do mundo se ocupando de uma horta que não está dando muito certo e tomando cerveja todas as noites, rememorando um mundo do qual apenas restos sobreviveram.

A chegada de um motoqueiro, primeira viv’alma que encontram em meio ano, muda todas as perspectivas. Primeiro pela clara natureza sobrenatural do visitante, que após a cervejada de praxe consegue falar sozinho com todos e com todos ao mesmo tempo. Ele avisa que as coisas estão para “mudar” e que os sobreviventes precisaram viajar ao sul rumo ao Bar None, o último bar da Terra. E em pouco eles partem em uma jornada rumo ao boteco lendário atravessando os vestígios da civilização humana. Levando diversas garrafas de vinho, é claro.

Os personagens são bem construídos, mostrando traços de suas vidas passadas a cada momento. O narrador, ávido amante do suco de cevada, faz diversas reminiscências de sua vida baseado nas diferentes marcas de cerveja que aprecia. Assim, quando toma um gole de London Pride se lembra quando provou da marca junto da esposa Ashley em uma passeata contra a guerra do Iraque, ou um gole de Double Drop traz de volta o dia que foram a um pub famosinho do interior e decidiram ter filhos. As cervejas são praticamente um personagem à parte, como podemos ver no breve trecho traduzido abaixo:

Theakston’s Old Peculier, profunda e escura e pesada, uma cerveja de churrasco com um toque achocolatado e um sabor final marcante, semelhante ao vinho, uma cerveja complexa, rica e poderosa como a pele de Ashley, os nuances da sua respiração, a gota de suor em sua nuca quando fazíamos amor. Theakston’s Old Peculier, a garrafa marrom ainda molhada e fria mesmo depois de estarmos sentados por mais de uma hora no jardim do Paul, observando-o virar a carne enquanto ouvíamos à fita demo da sua banda e Ashley ao meu lado, tomando sua própria bebida e me tornando o centro do universo sem sequer olhar para mim.

O autor Tim Lebbon, conhecido conhecido por novelizações da série Alien, cria muito bem uma atmosfera de embriaguez perpétua, ligada à nostalgia de um mundo que não mais existe. É um livro sobre lembranças, quase como se ao final de tudo restasse apenas uma mesa de bar com pessoas rememorando as vidas de toda a humanidade. O grupo encontra respostas, não muitas, durante sua jornada ao Bar None e diversos percalços se apresentam ao perceberem que eles não são os últimos sobreviventes assim como a exata natureza do cataclisma que limpou o planeta dos seres humanos.
Bar None é um daqueles casos que até quem não tem preferência por ficção sobrenatural pode curtir, uma vez que a ênfase está nos personagens e lembranças. Diria que é um livro pós-apocalíptico para quem gosta de encher a cara.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

VocĂŞ está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

VocĂŞ está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

VocĂŞ está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

VocĂŞ está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: