Quem tem medo do feminismo negro?, de Djamila Ribeiro 📖 Leituras do Solari #160

Publicado pela Companhia das Letras, o livro é uma coletânea de artigos da filósofa Djamila Ribeiro sobre questões de raça e gênero, além de conter uma introdução autobiográfica chamada A máscara do silêncio.

É bom tirar algumas coisas da frente antes de tudo. Quem assiste aos vídeos atentamente pode ter percebido que eu não sou mulher. Ou negra. E pessoas me perguntaram porque estava lendo sobre feminismo negro sendo homem e branco, quando a pergunta já traz a resposta. Justamente por ser homem e branco o livro traz um aspecto da vivência humana que eu não experiencio, mas que é realidade diária para muita gente.

Gente, eu não tenho nada contra homens brancos. Convivo com homens brancos no trabalho. O porteiro do meu prédio inclusive é homem e branco e eu comprimento ele todo dia, sem o menor preconceito. O que eu não sei é o que é andar na rua de noite com mais medo da polícia do que ser assaltado. Eu não tenho medo de ser estuprado. Eu não cresci com a autoestima abalada porque a escola inteira falava que o meu cabelo era “ruim” por ser liso como macarrão. E ouvir o relato de quem passou e passa por isso a meu ver só amplia a minha cabeça.

Outra coisa que vou ouvir é que o livro é “coisa de esquerda”. Eu nem me considero de esquerda pra ser bem sincero. Acho que esquerda e direita são posições econômicas bem técnicas, privatizar mais ou menos, enfatizar a economia ou programas sociais. Convencionou-se que ter respeito ao próximo e se opor ao preconceito é de esquerda no ambiente político de quinta série polarizada em que vivemos. Se tentar ouvir pessoas com experiências diferente da minha é coisa de esquerda pra você, então sou de esquerda pra você.

Uma questão interessante que o livro levanta é porque ter um feminismo negro, e não falar apenas em feminismo? A resposta é a mesma de falar em feminismo e não só direitos humanos. Claro que é preciso respeitar todos os seres humanos, mas o termo geral mascara problemas pelos quais as mulheres passam, assédio, diferença salarial, etc. É preciso tornar específica a luta dos direitos das mulheres para evidenciar os problemas das mulheres, e das mulheres negras para mostrar os problemas específicos de mulheres negras. Como a dificuldade de encontrar espaço e serem ouvidas dentro do próprio movimento feminista.

Os artigos abordam temas variados como o humor como ferramenta de opressão para manter o status quo, declarações de celebridades, o mito de uma “democracia racial” no Brasil, privilégio (e falta de), como ter poder na sociedade é ter voz, que racismo reverso existe tanto quanto unicórnios, blackface, fantasias de Carnaval, fetichismo com “mulatas” e, de particular interesse para mim, se homens brancos podem protagonizar a luta feminista e antirracista. (Spoiler: não. Mas podemos sim ajudar a espalhar a voz de minorias).

Mas o texto que mais me marcou foi mesmo a introdução A máscara do silêncio, por ser um relato fascinante de como Djamila foi adquirindo consciência gradual do machismo e racismo da sociedade. Os comentários dos colegas sobre a “neguinha” da sala, a sensação constante de exclusão, e como a constante descoberta do feminismo negro foi dando nome a questões que a angustiavam, mas que ela não sabia o porquê. Afinal um primeiro passo para resolver um problema é reconhecer que ele existe. Dar nome a ele.

E daí a importância de livros como Quem tem medo do feminismo negro? Por mais que eu saiba que as atitudes de preconceito relatadas no livro são reais, como homem branco elas são tão fora da minha realidade que eu preciso abstrair para imaginar como deve ser a vida assim. Mas força que um livro desses tem nas mãos de uma menina negra, ver os seus problemas ali nomeados, explicitados, dissecados, ver que não está sozinha. É uma sensação que eu com empoderamento e privilégio saindo pelos meus ouvidos só posso imaginar.

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