Starlings, de Jo Walton 📖 Leituras do Solari #145

“Não só não existem finais felizes,’ ela disse a ele, “não existem nem mesmo finais.” ― Neil Gaiman, Deuses Americanos

Starlings é uma coletânea de micro-contos de fantasia e ficção científica da poetisa galesa Jo Walton que desafiam o conceito do que é uma história. Parece que o leitor pega uma breve janela de uma história maior. Essa estrutura de quase-trechos dá um ar de que são contos contados oralmente, pela metade, modificados parcialmente. Se autores como Neil Gaiman criam mitologias modernas, Jo Walton vai mais para o lado de criar um folclore moderno.

Para mim a diferença é que parecem histórias mais perenes, menos constantes. Enquanto uma mitologia são os mitos de um povo, o folclore varia de povoado em povoado, muda de contador para contador. A perspectiva de poetisa de Dalton aparece nessa síntese dos contos que, por mais que por vezes me deixassem com vontade de querer conhecer mais aquele mundo, eu apreciei que não se alongam como em outro livros.

Os temas dos contos são bem variados. Uma carta de Jane Austen à profetisa grega Cassandra sobre o pensamento na previsão do tempo. O algoritmo do Google ganhando consciência e resolvendo se censurar por conta própria. Uma idosa de 89 anos com problemas de memória encontra um alienígena. Uma menina sadicamente arrancando as asas de uma fada junto de uma coleguinha. Uma moeda distribuída em uma estação espacial vai sendo passada de mão em mão mostrando as histórias de cada um que a manuseia. De reinos fantásticos a um EUA mágico em plena Depressão. Tem até um soneto sobre o Godzilla.

Apesar da variedade, temos alguns temas recorrentes, como o ato ganhar consciência. Tanto devido à idade ao amadurecer como acordar de um sonho ou entender estar em uma simulação. Os contos têm um ar de pequenos diamantes não-lapidados, novamente como a poesia, que dependem universo do leitor para serem completados e compreendidos.

Uma ou outra história me marcou mais e continuou comigo após a breve vida durante a leitura, mas o que Starlings mais me botou pra pensar depois é no que consiste uma história. Uma história pode ser composta por quase 2 milhões de palavras como o Bhagavad Gita, ou por apenas seis (baby shoes for sale: never worn).

Na vida de uma mesma pessoa pode ser uma história, ou você encontrar nessa vida histórias radicalmente diferentes, de covardia e coragem, aventura e tédio. Como dizia Orson Wells, que toda história pode ter um final feliz, só depende de quando você pára de contar a história. E por isso existe um grande poder em histórias que fogem não só de um conteúdo tradicional, mas também da estrutura tradicional começo meio e fim.

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