Contos Fantásticos no Labirinto de Borges; org. por Braulio Tavares đź“– Leituras do Solari #140

Contos relacionados a, ou discutidos por, Jorge Luis Borges que mostram os bastidores da criação de sua obra

Uma coletânea de contos que parte de um princípio genial: ao invés de analisar o que um autor escreve, analisar aquilo que ele leu. Isso é especialmente interessante se tratando de Jorge Luis Borges, que além de escritor é praticamente um gênero literário. Apesar de aproximações aqui e ali, seus trabalhos não se enquadram em ficção científica, fantasia, absurdo, realismo fantástico ou no que for. Contos do Borges são contos do Borges.

Cada um dos 18 contos, tanto de nomes conhecidos como H. G. Wells, Poe e Ray Bradbury como autores já mais obscuros atualmente, traz antes de si uma breve biografia do autor e o contexto no qual ele se intersecta com a obra borgiana. Ao final, temos um excelente postfácio assinado pelo organizador, o jornalista Braulio Tavares, que por sinal mantém o blog Mundo Fantasmo com ensaios sobre literatura, ficção científica, horror, fanzines, teorias diversas e o que mais vier. Esses prefácios também trazem trechos com considerações que o próprio Borges deixou em seus ensaios e cartas sobre os contos da coletânea.

Entre os contos que mais apreciei estão “O Abacaxi de Ferro”, de Eden Phillpotts que lida da obsessão inexplicável de um homem com um, bem, abacaxi feito de ferro. “O Ovo de Cristal” de H. G. Wells, que traz a mesma ideia do universo em um único ponto contida no “Aleph”. E talvez o que mais gostei foi “Um Artista da Fome”, de Kafka, sobre um artista circense cuja apresentação consiste em ficar em uma jaula passando fome por dias a fim, aos olhos curiosos dos espectadores, que na verdade se interessam mais em ver os animais.

Me surpreendeu a grande incidência de contos policiais na coletânea, interesseque inicialmente não associava muito com o escritor argentino, mas que de fato faz sentido se pensarmos no apreço de Borges pela racionalidade e pensamento lógico em sua literatura (paradoxos, questões matemáticas, etc). Apesar dos policiais não serem muito de meu interesse, achei as opções escolhidas interessantes para um turismo literário a este gênero.

No postfácio, Tavares consolida diversos temas recorrentes em Borges. Cenários como a manipulação do tempo para que a intensidade de vidas se passe em um instante, artefatos alienígenas que escorregam entre as rachaduras da realidade até chegar ao nosso mundo, livros não-escritos, simulacros, obsessão por objetos quaisquer, mundos apócrifos, labirintos e outros assuntos são analisados de forma clara e profunda. O livro também traz ilustrações de Romero Cavalcanti que capturam de forma bela o universo borginano.

A revisão da editora Casa da Palavra dá uns dois ou três escorregões em erros de digitação, mas algo que pouco depõe contra essa obra que obviamente foi feita por grandes interessados na obra borgiana. Trata-se de uma forma criativa e única de analisar esse que é um dos mais fascinantes autores do século 20.

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