Metro 2033, de Dmitry Glukhovsky đź“– Leituras do Solari #139

O livro que gerou a série de videogames Metro é um retorno claustrofóbico a um tema clássico da ficção científica russa

“O que poderia incomodar pessoas que não precisam se preocupar com a sobrevivência a cada segundo e lutar constantemente por ela, tentando estendê-la por mais um dia?”

Metro 2033 é ambientado 14 anos após uma guerra nuclear ter destruído a superfície do planeta e os sobreviventes de Moscou tomam refúgio no sistema de metrô. Lá eles lutam para sobreviver criando porcos e cogumelos no subterrâneo e salvando o que conseguem da superfície em viagens curtas para evitar os piores efeitos da radiação. Com o tempo, as estações se tornam verdadeiras cidades estado com seu próprio governo, leis, cultura e dinâmica.

O autor Dmitry Glukhovsky consegue criar um ambiente muito claustrofóbico, um mundo no qual a própria luz é um luxo e a violência é comum. Tanto de humanos como de horrores inexplicados gerados pela radiação. A história segue Artyom, um jovem que mal se lembra do mundo pré-apocalipse. Ele sai em uma jornada através do metrô para buscar ajuda contra os ataques de misteriosas criaturas da superfície chamados de “dark ones”. Uma ameaça que promete acabar com toda a vida no metrô.

Antes da leitura eu temia que essa ambientação subterrânea seria sem graça, mas é surpreendentemente variada. Cada estação tem um jeitão próprio. Artyom encontra um centro de comércio, uma estação abandonada, uma comunidade anarquista, um pesadelo fascista, um centro científico, uma guerrilha comunista, um monastério, um grupo tribal e assim por diante. Também há personagens intrigantes – mesmo que talvez um pouco unidimensionais – entrando e saindo da odisseia de Artyom a todo instante. O meu favorito é um velho guerreiro filósofo que insiste que é a reincarnação de Genghis Khan. E – quem sabe? – talvez ele seja mesmo.

Há uma constante sensação de inquietação no livro, com sonhos perturbadores e encontros paranormais no escuro com criaturas estranhas. O velho mundo lança uma sombra constante sobre o novo que cresceu no metrô, sua memória se esvaindo e monumentos icônicos como o Kremlin se tornando míticos.

Metro 2033 segue a muito russa tradição da ficção científica iniciada por Roadside Picnic, dos irmãos Strugatsky, um livro sobre uma zona paranormal criada por uma visita alienígena à terra. Essa história acabou gerando um dos meus filmes favoritos, Stalker, de Andrei Tarkovsky. Assim como as séries de videogames Metro e Stalker. Talvez o mais assustador é como essa história de pessoas vivendo em torno de uma zona proibida e perigosa se tornou profética com o desastre de Chernobil de 1986.

Livro muito recomendado, um excelente exemplar da nova ficção científica russa.

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