As CrĂ´nicas Marcianas, de Ray Bradbury đź“– Leituras do Solari #138

A clássica coletânea de histórias curtas que tirou a ficção científica de seu gueto pulp traz uma Marte mítica que reflete nossa Terra real

Toda fantasia e ficção científica tem uma base na realidade, e os melhores escritores conseguem colocar questões humanas fundamentais nas premissas mais bizarras. E existem poucos exemplos melhores do que “As Crônicas Marcianas”, um livro que Ray Bradbury finge ser sobre humanos explorando e colonizando o planeta vermelho, quando na verdade ele está escrevendo sobre Winesburg, Ohio, assim como qualquer outro lugar em qualquer outro tempo.

O leitor encontra um paralelo direto com a expansão do oeste norte americano, particularmente a dizimação da população indígena por doenças como a catapora, como em “And the Moon Be Still as Bright”. Em “The Summer Night” temos marcianos cantando telepaticamente músicas pop americanas para os invasores, sem se dar conta da sua origem. Lembra a morte cultural de nativos quando a cultura do homem branco se impôs sobre a sua. Como a própria presença humana polui.

A minha história favorita foi “Night Meeting”. Um caminhoneiro chamado Tomás Gomez está dirigindo à noite entre os restos de cidades marcianas quando encontra um marciano vivo, mas que está curiosamente translúcido. Tomás descobre que ele aparece da mesma forma espectral ao marciano e conforme eles conversam o marciano descreve um oceano onde o caminhoneiro vê uma nova cidade humana. O marciano enxerga uma gigantesca metrópole onde Tomás vê apenas ruínas. Se torna claro que eles são de tempos diferentes se encontrando na noite por algum motivo, mas é engenhoso como não é claro quem é do futuro e quem é do presente – toda era é a mesma era – e a atmosfera é assustadora.

Muitos desses dramas e conflitos nos contos são atemporais ao invés de apenas relacionados ao oeste americano, no entanto. A mesma história de conquista e genocídio que se repetiu desde tempos imemoriais na terra, e Bradbury sugere que ela continuará a se repetir indefinidamente mesmo se nós nos expandirmos para outros mundos. A ressalva é como Bradbury lembra que o ser humano chegou a um nível tecnológico no qual ele pode não sobreviver a outra guerra mundial.

O livro termina em uma nota ao mesmo tempo desiludida e esperançosa com “The Million-Year Picnic”, apontando para uma segunda chance que a humanidade pode não ter no caso da destruição da Terra. Os humanos não aceitaram Marte, e sim tentaram recriar uma segunda Terra e Bradbury que para sobreviver como espécie, o ser humano precisará queimar os velhos mapas, esquecer seus modos antigos e se tornar algo diferente: os novos “marcianos” que as crianças encontram quando veem seus reflexos no canal.

Li o livro em inglês, mas edições em português são comuns. Leitura altamente recomendada.

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