Year Zero, de Rob Reid 📖 Leituras do Solari #136

Alienígenas que ouvem transmissões de rádio descobrem que têm uma dívida absurda com a humanidade devido à pirataria em romance bem-humorado

Year Zero pode ser descrito como uma história de primeiro contato no estilo Douglas Adams. São livros como o já resenhado Agent to the Stars, nos quais a construção do universo é propositalmente absurda e o humor fica à frente da coerência.

Em Year Zero, os seres humanos estão cercadas por milhões de espécies alienígenas ridiculamente superiores a nós em todos os quesitos, de física pós-quântica a design de interiores. Só em uma coisa nós somos melhores: na música.

Quando os ETs captaram as primeiras transmissões de rádio da Terra, ficaram de queixo — ou similar — caídos. Eles passaram a, maravilhados, ouvir, baixar e distribuir entre si toda a produção musical da humanidade. Foi até preciso criar um escudo protetor em torno da Terra no fim dos anos 1970 para impedir que trilhões de fãs do The Who invadissem o planeta para assistir a um show da banda. Apenas recentemente os aliens perceberam que deviam uma quantidade absurda de recursos para os seres humanos por piratear nossa música.

Como os ETs insistem em sempre seguir as leis dos produtores de qualquer manifestação artística, é preciso criar uma licença legal que permita que toda música transmitida em qualquer rádio desde 1977 ou disponível na internet possa ser tocada de forma forma privada e em público. Copiada, transmitida, distribuída e guardada por infinitilhões de criaturas. Até o final dos tempos.

O ponto forte do livro é precisamente o conhecimento do inferno legal por parte do autor, que o sentiu na carne como criador do serviço de distribuição de música Listen.com. O protagonista de Year Zero é um advogado especializado em copyright que dá um olhar cínico sobre sua atividade. “Não, a gente não parou o avanço da pirataria, nem conseguimos atrasar minimamente sua disseminação. Mas recebemos quantidades pornográficas de dinheiro por tentar”.

Year Zero desnuda de forma cômica algumas estratégias usadas pelas gravadoras, como não precisar ganhar uma alegação de quebra de copyright, mas apenas alegar a violação hipotética de uma cláusula obscura e deixar o defendente sufocado em despesas legais. Assim como um senador do lobby tão pau-mandado que é apelidado internamente de “Fido” no escritório de advocacia.

O livro retrata produtores de gravadora que odeiam uns aos outros, odeiam músicos (narcisistas!), odeiam rádios (tem poder demais!), odeiam distribuidores online (bandidos!), odeiam os poucos vendedores de cds que sobraram (muita margem de lucro!), odeiam a indústria de shows (esse dinheiro devia ser nosso!), odeiam a MTV (ganhando com as nossas coisas!) e odeiam os consumidores, (ladrões baixando nossa música!).

Reid também se diverte com esse universo absurdo no qual até o mais obscuro one-hit-wonder possui bilhões de fãs em algum lugar do universo. Um alienígena é famoso só por ser meio parecido com o vocalista do Simply Red.

A trama envolve uma conspiração para destruir Terra por parte de agentes alienígenas que não querem pagar a conta da pirataria, que é nada menos do que toda a energia do universo. Esse lado “biblioteca de Babel” de Year Zero é bem interessante, já que ele usa as proporções cósmicas dessa dívida para mostrar o absurdo de leis de copyright que acabam permitindo cobrar milhares de dólares por cópias ilegais de meia dúzia de músicas. Outra jogada criativa é como a invasão da Terra se dá pelo mais aterrorizante dos exércitos: uma equipe de reality show. Isso sim é assustador.

Year Zero não é perfeito. Ele dá uma enfraquecida no meio e final e tem algumas barrigas, em particular quando o autor tenta ir para um lado mais alien mesmo e se afasta das questões legais que são o forte do livro. Não achei tão bem executado quanto Agent to The Stars, por exemplo, que começa com a premissa bacana, mas traz uma boa história que se sustenta sozinha.

Year Zero é um bom livro de primeiro contato absurdo, e valeu pela premissa criativa e execução bacana apesar de algumas falhas.

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